quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Ética editorial – os plágios devem ser retratados? – não todos


 

Por Ernesto Spinak 



          O que se deveria fazer com um artigo no qual foram detectadas partes que foram copiadas de trabalhos previamente publicados: (a) rejeitá-lo no processo editorial, (b) retratá-lo se já tiver sido publicado, ou (c) alguma outra medida? Este problema é levantado por Praveen Chaddah, em um número recente da Nature, o qual pessoalmente foi vítima de dois plágios.
          Chaddah está de acordo que o plágio é uma má conduta, porém distingue entre o “plágio de texto” e o plágio de ideias. No final das contas, os cientistas não são escritores de livros ou romances, e o importante a defender é que não se tome créditos por ideias ou resultados de outros pesquisadores. Porque o plágio de ideias golpeia diretamente no coração da pesquisa, como empreendimento criativo e inovador. Uma ideia pode ser uma hipótese para explicar observações ou um experimento para validar esta hipótese, e este tipo de plágio é difícil de descobrir pelos procedimentos automáticos de detecção de plágio que simplesmente escaneiam textos. Também, ressalta Chaddah, a cópia de resultados sem a devida referência, mais do que plagio, é diretamente uma fraude.

          O problema que introduz Chaddah é como deveriam ser tratados estes três tipos de plagio.

1. Cópia de textos na introdução. Este tipo de plagio é facilmente detectado por software, e para alguns periódicos é causa suficiente para rejeitar o artigo, porém se o experimento é realizado corretamente, os resultados poderiam ser importantes e benéficos neste campo de pesquisa.

2, 3. Copiar textos da seção de “métodos ou da seção de “resultados” pode ser mais grave se estiverem sendo copiado ideias e dados. O software não pode determinar esta classe de plagio, para o qual se requer a visão de um especialista.

         Se for certo que os autores poderiam ter ultrapassado a linha da ética, a pergunta é se estes trabalhos deveriam ser retirados, ou somente retratados, ou corrigidos com informação suplementar. A resposta é: depende… De todas as maneiras, o descobrimento de plágio, ainda que não mereça uma retratação, pelo menos requer uma investigação. Entretanto, as políticas seguidas pelos periódicos no processo de revisão não são claras no que se refere à tecnologia de detecção de plágio, nem como os editores encaram a situação para resolver estes casos de plágio.

          O tema não é simples, pois para os pesquisadores a seção “métodos” apresenta um conjunto singular de desafios se quiser ser original.
 
          A razão é que, mesmo quando se realiza uma pesquisa original, os autores  inevitavelmente estarão repetindo os mesmos passos que outros cientistas fizeram anteriormente. Seja que estejam usando técnicas já estabelecidas para estudar algo novo, ou simplesmente replicando um estudo anterior, pode ser frustrante tentar encontrar novas formas de descrever com precisão algo que já foi feito inúmeras vezes anteriormente. (Bailey 2013) (tradução livre) segundo opinião de Jonathan Bailey, assíduo colaborador no blog de Ithenticate referindo-se ao plágio.

         Esta dificuldade de escrever um texto original sobre algo que já foi descrito repetidas vezes levou muitos autores, quando repetem métodos que têm sido usados anteriormente, a simplesmente copiar o texto com as descrições. Ocorre com mais frequência por autores que não são de língua inglesa. O erro é copiar a seção “métodos, sem fazer a atribuição correspondente à fonte original.
         De acordo com um estudo publicado recentemente em Scientometrics frente a esta prática bastante frequente, 20% dos editores em biociências não o consideram importante se a parte copiada é menor que 40% da seção “métodos.
A pesquisa em Scientometrics mostrou que os autores usam diferentes estratégias ao escrever a seção “métodos” no artigo: a prática mais frequente é que se copiam os métodos publicados, portanto, com menos frequência, é feita referências a trabalhos anteriores, e ainda menos frequente é reescrever completamente a seção com suas próprias palavras. Os diagramas de decisão do Committee on Publication Ethics indicam que a decisão é de responsabilidade do editor e irá depender do tipo e extensão da parte copiada.

         O uso cada vez maior de CrossCheck em anos recentes aumentou a possibilidade da detecção de plágio “textual”, pelo que deveria ser definido como “boa prática” editorial algumas regras de decisão, em particular sobre esta seção tão difícil do artigo, principalmente nos periódicos em biociências.

        O artigo do Scientometrics sugere algumas regras de “boas práticas” para escrever a seção “métodos”, que também foram propostas no ano passado no periódico Journal of Zhejiang University, outro periódico científico que aborda o mesmo tema.

Sugestões
  1. Quando for possível, os autores deveriam usar suas próprias palavras para descrever os métodos.
  2. Se a descrição foi publicada previamente, total ou parcialmente, seja pelos mesmos o por diferentes autores, a repetição deveria ser claramente identificada (recuo, cursivas, entre aspas) e fazer referência completa ao original.
  3. Diferentes periódicos preferem diferentes estratégias. Alguns requerem o uso de uma frase tal como “de acordo com métodos bem estabelecidos” ou “como descrito previamente” (preferido por The Lancet) e logo fazer a referência apropriada.
  4. Outros periódicos como Science, requerem que os autores incluam a seção “métodos” como um anexo ou parte dos materiais suplementares.
  5. Somente deveria ser fornecida uma descrição detalhada caso o método usado seja completamente inédito.
  6. Se a seção “métodos” se refere a fornecedores de equipamento (kits), então seria suficiente fazer uma referência aos manuais dos fornecedores.


FONTE: SciELO em Perspectiva, 13/08/2014.


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