sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Literatura pode facilitar as relações humanas, aponta pesquisa


Pesquisa norte-americana encontra indícios de que a literatura ajuda a desenvolver a capacidade de interpretar os pensamentos e as emoções alheias



Vilhena Soares

                 “Dupla delícia, o livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.” A frase do escritor gaúcho Mário Quintana fala da sensação de companhia proporcionada pela leitura. Entretanto, as vantagens de um bom livro não param por aí, aponta um novo estudo publicado na edição da revista Science. Segundo a pesquisa, a literatura pode ajudar no relacionamento com outras pessoas, ajudando o leitor a interpretar melhor as emoções alheias. O trabalho aponta ainda que não é qualquer tipo de obra que provoca esse efeito. Segundo os experimentos conduzidos durante a investigação, os livros de leitura mais “fácil”, que costumam integrar as listas de mais vendidos, não ajudam no aprimoramento da habilidade social.

                 Emanuele Castano, professor associado do Departamento de Psicologia da New School for Social Research em Nova York e um dos autores do estudo, explica que o objetivo inicial do trabalho era tentar desvendar como funciona um conceito da psicologia denominado teoria da mente, a habilidade humana de inferir os pensamentos e as emoções de outras pessoas. “Os seres humanos são claramente propensos a ter essa capacidade, mas argumentamos que ela também é afetada pelas práticas culturais”, diz o pesquisador. A partir da noção de que a prática pode aumentar a capacidade de interpretar o outro, Castano e seu colega David Kidd decidiram investigar o efeito dos livros sobre a teoria da mente. “A leitura pode ser uma experiência poderosa. Nosso objetivo era expandir o que conhecemos sobre o efeitos dessa prática em nossas mentes”, completa Kidd.

                Para isso, eles criaram um experimento em que voluntários leram diferentes tipos de texto, classificados como ficção literária, ficção popular e não ficção. As obras do primeiro grupo eram finalistas ou vencedoras da edição de 2012 do The PEN/O. Henry Prize, importante concurso de contos dos Estados Unidos. Os trabalhos de ficção populares foram retirados da lista de best-sellers do site de vendas Amazon, e os de não ficção eram artigos retirados da revista americana Smithsonian Magazine. Para realizar uma comparação mais abrangente, os pesquisadores também testaram voluntários que não leram nenhuma publicação.

               Após a leitura de um dos textos selecionados, os participantes passaram por diferentes testes para medir a capacidade de interpretar expressões humanas. Um dos experimentos, por exemplo, consistia em olhar para fotos de atores em preto e branco e afirmar, quase imediatamente, sem refletir muito, qual emoção estava sendo expressa por seus rostos. “É um teste direto, que mede a capacidade de fazer inferências sobre outros estados emocionais”, justifica Kidd. Os pesquisadores notaram que os participantes designados a ler ficção literária tiveram um desempenho significativamente melhor do que os outros voluntários nos cinco tipos de testes aplicados.

              A dupla acredita que, pelo conteúdo mais denso, a ficção literária conseguiu estimular mais a reflexão sobre os outros nos leitores. “Ao contrário da ficção popular, a ficção literária não é realmente sobre a ‘trama’, mas sobre os personagens e suas vidas interiores. O perfil psicológico não está disponível para o leitor muito explicitamente. Os personagens são complexos, por vezes contraditórios, e incompletos”, destaca Kidd. “Ficção literária obriga o leitor a se tornar coautor da história. Ele é forçado a entrar na mente do personagem. Isso aciona os processos mentais. Durante a leitura de ficção literária, treinamos essa capacidade de teorização em nosso cérebro”, avalia.

Estímulo

Cristiano Mauro Gomes, psicólogo e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), considera o resultado do trabalho interessante. “Para darmos diagnósticos de crianças autistas, por exemplo, existem testes que tentam identificar o nível de habilidade da teoria da mente. O método usado por esses cientistas é mais diversificado e sofisticado, por isso consegue mostrar a influência de uma atividade cultural como a leitura”, detalha. Para ele, o teor dos textos pode explicar o fato de a ficção literária ter levado a resultados melhores. “Quando lemos ficção literária, nós desenvolvemos a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, em uma posição ativa, que pode ter atrito com as crenças que temos.”

Silviane Barbato, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), acredita que a leitura, de forma geral, estimula o cérebro, provocando essa melhora na habilidade de compreensão do outro. “A literatura, como qualquer arte, estimula a imaginação, cria um mundo de possibilidades interpretativas”, diz. “A pesquisa se diferencia por mostrar essa habilidade (teoria da mente) como algo mutável, que pode ser aprimorado com o tempo, o que é bastante positivo”, avalia.

Castano acredita que a pesquisa pode ajudar muitas pessoas a melhorarem o seu relacionamento interpessoal com um instrumento totalmente positivo. “Os resultados que apresentamos em nosso trabalho são preliminares, mas dão suporte a aplicativos já existentes, como programas de leitura para presos. Afinal, ao contrário de medicamentos, ficção literária não tem qualquer efeito colateral negativo”, ressalta o pesquisador.


Suposição
O nome teoria da mente é utilizado pelos pesquisadores para definir essa habilidade humana por se tratar de uma capacidade em que uma pessoa supõe o que a outra está sentindo. Trata-se, portanto, de uma habilidade comandada por referências, por suposição. Esse tipo de capacidade começa a se desenvolver ainda nos anos da pré-escola. As crianças pequenas constroem inicialmente teorias da mente ingênuas, mas, do meio para o fim da infância,
começam a interpretar desejos e crenças dos outros.

Artigo:

KIDD, David Comer, CASTANA, Emanuele. Literary Fiction Improves Theory of Mind. Science, v. 342, n. 6156, p. 377-380. 

 

FONTE: Correio Braziliense, 4/10/2013 

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