quinta-feira, 9 de março de 2017

Estudo investiga nova frente de defesa de bactérias para oxidantes gerados pelo sistema imune

Representação da estrutura tridimensional de Ohr (Imagem: Divulgação)
Um estudo realizado pelo Centro de Pesquisa em Processos Redox em Biomedicina (CEPID REDOXOMA) e financiado pela FAPESP revelou novos aspectos relacionados ao mecanismo de ação da enzima chamada Ohr (proteína de resistência a hidroperóxidosorgânicos, na sigla em inglês). 

Coordenado pelo pesquisador Luis Eduardo Soares Netto, a análise contou com a participação de cientistas do Brasil e do exterior, dentre eles o professor Marcos Antonio de Oliveira, do Instituto de Biociências da UNESP. Os resultados estão no artigo Ohr plays a central role in bacterial responses against fatty acid hydroperoxides and peroxynitrite, recentemente publicado pela revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences. O título está disponível para acesso pelo Portal de Periódicos da CAPES.

Trabalhos recentes revelam que bactérias possuem a enzima denominada Ohr, que confere a diversas espécies de bactérias a capacidade de neutralizar substâncias oxidantes liberadas pelo sistema de defesa do organismo hospedeiro – seja ele vegetal ou animal. Segundo os autores, o conhecimento pode abrir caminho para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas para doenças causadas por microrganismos em plantas e animais. 

“Existem atualmente bactérias super-resistentes aos fármacos e a busca de novas abordagens ou alternativas para o tratamento de doenças infeciosas é uma fronteira da ciência de grande importância”, comenta Oliveira.

Luis Eduardo Soares Netto é coordenador da pesquisa que analisa a enzima Ohr (Foto: Divulgação)
De acordo com Netto, “não há em plantas ou em animais nenhuma proteína conhecida com estrutura semelhante à da Ohr. Isso sugere que é possível inibir essa enzima na bactéria sem causar grandes prejuízos ao organismo infectado e, por isso, ela se torna um alvo interessante para o desenvolvimento de fármacos”.


Para validar as descobertas, foram feitos ensaios in vitro com a proteína Ohr produzida pela Xylella fastidiosa – bactéria causadora da doença clorose variegada dos citros (CVC), ou “amarelinho”, que ataca a laranja. Nos testes, os cientistas incubaram a Ohr purificada com diversos tipos de hidroperóxidos. 

O objetivo foi medir o tempo necessário para a enzima transformar cada um desses oxidantes em substâncias menos tóxicas. “Observamos, por exemplo, que ela consegue neutralizar o peróxido de hidrogênio [água oxigenada], mas o processo é 100 mil vezes mais lento do que no caso do hidroperóxido de ácido araquidônico”, conta Netto.

O passo seguinte foi a realização de ensaios microbiológicos e, para isso, o grupo usou linhagens de bactérias da espécie Pseudomonasaeruginosa, que em humanos é responsável por causar infecções oportunistas no trato respiratório, urinário e no ouvido.

Superfície molecular da proteína Ohr com resultado de ancoragem de moléculas de peróxidos de ácidos graxos, que se ligam especificamente ao sitio ativo da enzima (Imagem: Divulgação)
“Comparamos um grupo de bactérias mutantes, que tiveram o gene da Ohr deletado, com bactérias selvagens [capazes de produzir a enzima]. Os dois grupos foram colocados em diferentes concentrações de hidroperóxidos para testar sua resistência”, relata Netto. 


Enquanto as bactérias selvagens conseguiam crescer em altas concentrações de hidroperóxidos, as linhagens mutantes paravam de se multiplicar mesmo nas doses mais baixas. Porém, quando o gene da Ohr foi inserido na linhagem mutante, as bactérias voltaram a mostrar resistência aos oxidantes comparável às células selvagens.

Segundo os pesquisadores, “os resultados são bastante importantes, pois o entendimento do funcionamento e dos substratos da enzima pode levar a descoberta de novos quimioterápicos para auxiliar no tratamento de doenças em que os patógenos possuem a proteína Ohr”.

Durante todo o processo de investigação, o uso do Portal de Periódicos da CAPES foi de suma importância para os pesquisadores. “A grande maioria dos artigos utilizados para o trabalho foram obtidos por meio do Portal. Nosso grupo de pesquisa trabalha na fronteira do conhecimento e as informações são obtidas majoritariamente por meio da leitura de periódicos”, declara Oliveira.

Além dos cientistas mencionados, também participaram do trabalho Thiago Alegria, José Renato Cussiol, Diogo Meireles, Paolo Di Mascio, Sayuri Miyamoto, Raphael Queiroz, Ohara Augusto, Napoleão Valadares, Richard Garratta, Rafael Radi, Martín Hugo e Madia Trujillo.
Alice Oliveira dos Santos

Fonte: Portal CAPES.

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