quinta-feira, 16 de outubro de 2014

País avança no desenvolvimento de métodos para substituir animais




CNPq aprova fomento de R$ 1,58 milhão para estimular produção de métodos alternativos no País
 
          O Brasil dá um passo em direção ao desenvolvimento de métodos alternativos na tentativa de substituir ou reduzir o uso de animais em experimentos científicos em laboratórios.
          O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), agência de fomento à pesquisa científica do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), aprovou medidas para estimular a produção de métodos alternativos. A intenção é substituir ou reduzir  o uso de experimentos com animais na pesquisa biomédica e testes toxicológicos.
          Segundo o diretor de Ciências Agrárias, Biológicas e da Saúde (CABS) do CNPq, Marcelo Morales, o órgão aprovou fomento de R$ 1,58 milhão para que os laboratórios centrais da Rede Nacional de Métodos Alternativos (Renama) possam desenvolver alternativas ao uso de animais. Trata-se de uma parceria entre o CNPq, MCTI e Ministério da Saúde.
          Criada há dois anos pelo MCTI, a Renama (renama@mcti.gov.br) possui três laboratórios centrais: Inmetro, Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQs) da Fiocruz e o Laboratório Nacional de Biociências (LNBio). Desde a sua criação, em 2002, a Renama recebeu recursos de R$ 2,2 milhões até agora, sem considerar os novos valores anunciados.
          Na prática, os recursos atenderão a três medidas com apoio direto à Renama. A primeira destina-se ao apoio para validação do método Het-Cam (in vitro), visto como alternativa ao teste de Draize (in vivo) hoje aplicado principalmente em coelhos para avaliar potencial irritação ocular que um agente químico pode provocar no ser humano.
          A segunda é voltada ao fomento da produção de linhagem geneticamente modificada para o desenvolvimento de ensaios in vitro, a fim de reduzir ou substituir o uso de animais em experimentos científicos.
          A terceira, por sua vez, propõe o cultivo de células e tecidos humanos para testes farmacológicos e toxicológicos, chamados de body-on-a chip. Isso significa usar células humanas em um chip para simular o funcionamento do corpo humano.
Há três meses apenas no comando da área de Ciências Agrárias, Biológicas e da Saúde do CNPq, Morales informou ainda que foram criadas áreas específicas de ciência de animais em laboratórios e de métodos alternativos ao uso de animais em experimentos científicos no órgão.
         “Essas áreas não ficarão mais perdidas. Serão avaliadas com cuidado e com a expertise de pesquisadores especializados“, disse Morales que foi coordenador do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) e presidente da Sociedade Brasileira de Biofísica (SBF).

Apoio à medida

          A medida, que tem o apoio da comunidade científica, está em consonância com as demandas do Concea, também vinculado ao MCTI.
          O coordenador do Concea, José Mauro Granjeiro, analisou as medidas do CNPq e as considerou um alento para pesquisa científica nacional. “A medida é excelente e coloca o Brasil na fronteira da pesquisa nessa área”, assegurou.
          A maioria desses métodos alternativos, disse, ainda está em fase de pesquisa e desenvolvimento no mundo e o Brasil, agora, pode fazer parte desse processo. É o caso do método Het-Cam que, segundo Granjeiro, já foi desenvolvido na Europa, mas seu processo de validação ainda depende de algumas análises. E nesse caso, o Brasil pode participar da fase final da validação do método Het-Cam.
          “Os laboratórios da Renama receberão recursos para participar do processo de validação e testar esses métodos utilizando diversos compostos químicos já conhecidos, para certificar se são eficientes ou não. Mas tudo indica que são eficientes”, pontuou.

Validação do método Het-Cam no Brasil

          Depois que a validação do método Het-Cam for finalizada e publicada pela OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o Concea fará também o reconhecimento desse método e irá incorporá-lo “em nossas análises”.
Granjeiro analisou também a medida que fomenta a produção de linhagem geneticamente modificada para o desenvolvimento de ensaios in vitro. Para ele, essa também é uma área em desenvolvimento no mundo. Por enquanto, disse, nenhum país validou esse método porque está em fase de pesquisa e desenvolvimento.
           “É uma estratégia que vai identificar linhagens celulares com modificações específicas que ajudarão a desenvolver experimentos científicos, diminuindo ou até substituindo o uso de animais”, explica.

          O método body-on-a chip, destaca Granjeiro, também está em processo de desenvolvimento no mundo. “Existe um esforço mundial para substituir o uso de animais, em alguns tipos de testes, por esse método, que significa colocar uma célula em um chip para simular o que acontece no corpo humano.”
Na avaliação do coordenador do Concea ainda é cedo para estimar quando esse último método estará disponível no mundo. “Ainda há muito trabalho pela frente, para validar esse método e para demonstrar que ele consegue efetivamente substituir os métodos com animais”, pontua.

Estímulo à pesquisa e desenvolvimento

          Diante de tal cenário, Granjeiro destaca a importância das medidas do CNPq nesta atual conjuntura. “As medidas são importantes porque devem estimular a pesquisa em métodos alternativos atuando em dois focos relevantes: apoio à validação de métodos alternativos (Het-Cam) e desenvolvimento de novos métodos alternativos, que no futuro podem ser validados e submetidos à análise dos órgãos regulatórios e possível aceitação internacional.”
          Granjeiro reforça, porém, que em algumas áreas nem sempre será possível substituir 100% o uso de animais nos experimentos científicos.
Representante da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) no Concea, Lucile Maria Floeter Winter, professora do Departamento de Fisiologia da Universidade de São Paulo (USP), reforça tal posicionamento. Disse que áreas como fisiologia, farmacologia, além da neurociência, são as que usam mais animais nos experimentos científicos porque analisam o organismo íntegro do ser humano.

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Viviane Monteiro


FONTE: Jornal da Ciência, 09/10/2014

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