segunda-feira, 2 de junho de 2014

Pesquisa aponta desafios da promoção da resiliência






                  Ao longo da vida, de uma maneira geral, os indivíduos se deparam com inúmeras dificuldades; e cada pessoa tem seu próprio limite e forma de como lidar e enfrentar as adversidades. Essa capacidade de superação, diferente em cada pessoa, é chamada resiliência. Existe um crescente interesse pelo estudo da resiliência e sua aplicação no campo da prevenção e promoção da saúde. Seguindo esta linha, a aluna do curso de mestrado em Saúde Pública da ENSP Laila Bom Rozembaum investigou fatores individuais, familiares e comunitários relacionados à diferenciação do desenvolvimento do potencial de resiliência na fase da adolescência, segundo questões de gênero, em alunos de escolas do município de São Gonçalo, no Rio de Janeiro.  
 
                Segundo Laila, essa nova tendência reflete o progressivo abandono da abordagem centrada nos fatores de risco, e, em contrapartida, enfatiza os fatores positivos que levam um indivíduo a superar as adversidades. Um dos principais dados encontrados na pesquisa aponta que não há uma associação entre o potencial de resiliência e a condição socioeconômica dos adolescentes. 
 
               Sobre as relações familiares, a pesquisa mostrou que o baixo potencial de resiliência está associado estatisticamente a um relacionamento pouco ou extremamente difícil do adolescente com a mãe/madrasta. Uma convivência extremamente difícil com outros parentes também foi preponderante para o baixo potencial de resiliência entre os adolescentes. Na mesma direção, a ausência de supervisão familiar e a presença da violência psicológica estiveram associadas. A estrutura familiar, o relacionamento com o pai/padrasto e com os irmãos, problemas com álcool e drogas, e violências do pai e da mãe contra o adolescente e deste com seus irmãos, além da violência que ocorre entre os pais, não apontaram associação estatística com o potencial de resiliência dos adolescentes.
                Em seu estudo, Laila, que é psicóloga, mostrou ainda que os adolescentes aumentam suas estratégias de copin – enfrentamento ou esforços cognitivos e comportamentais para lidar com situações de dano, ameaça ou desafio quando não se está disponível uma rotina ou uma resposta automática. Apenas esforços conscientes e intencionais são considerados estratégias de coping, não sendo consideradas respostas subconscientes -, ao aumentarem seu potencial de resiliência. O contrário acontece com aqueles que denotam mais baixo potencial de resiliência. 
 
                O coping de evitação (negação e fuga) não se mostrou distinto entre adolescentes de mais alto ou baixo potencial de resiliência. Já em relação aos sintomas depressivos, adolescentes que os apresentam em nível clínico mostram mais baixa capacidade de resiliência.
 
                Em relação ao gênero, as adolescentes têm menor probabilidade de apresentarem alto potencial de resiliência, pois mencionaram ser bem difícil ou extremamente difícil lidar com os irmãos. Já os meninos, nos relacionamentos difíceis com os irmãos, apresentam maior probabilidade de serem resilientes. Meninas também possuem menor probabilidade de serem resilientes do que meninos ao considerarem que é muito estressante morar amontoado. 
 
              Segundo Laila, este projeto integrou uma pesquisa desenvolvida pelo Centro Latino Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/ENSP). Foi um estudo transversal, com dados originários de um inquérito epidemiológico com 889 adolescentes escolares do município de São Gonçalo/Rio de Janeiro, desenvolvido no ano de 2010. Participaram da pesquisa 44 escolas públicas e 28 particulares, contando com duas turmas por escola. 
 
             “Existe um crescente interesse pelo estudo da resiliência e sua aplicação no campo da prevenção e promoção da saúde, tendo como base o indivíduo, a família, a escola e a comunidade. Essa nova tendência reflete o progressivo abandono da abordagem centrada nos fatores de risco e em contrapartida, enfatiza os fatores positivos que levam um indivíduo a superar as adversidades”, disse ela.  
 
            Com os resultados desta pesquisa, Laila afirma que, seja qual for o contexto, promover resiliência é um desafio. “Somente a partir da união de forças das diversas estratégias dos governos, das escolas e da comunidade, bem como esforços provenientes da própria família é que a disseminação do conceito e a promoção da resiliência propriamente dita pode acontecer”. Segundo ela, é importante apostar no efeito contagioso da resiliência na comunidade para então promover a resiliência de cada adolescente, de maneira singular, respeitando e incluindo as diferenças e promovendo um ambiente fortalecido e uma cultura de superação.


FONTE: Escola Nacional de Saúde Pública, 30/05/2014 



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