quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Produção em série para células-tronco





Descoberta permite fabricação mais rápida e eficiente de células de pluripotência induzida a partir de tecidos adultos


Pesquisadores do Instituto de Ciências Weizmann, em Israel, descobriram uma maneira mais rápida e eficiente de produzir as chamadas células-tronco de pluripotência induzida (iPS, na sigla em inglês), capazes de se transformarem em qualquer tecido do corpo e chave para cumprir a promessa da medicina regenerativa de fabricar órgãos e outros tecidos para transplantes sob encomenda e medida. A técnica para produção em massa destas células não só poderá acelerar os estudos na área como, no futuro, fornecer o material necessário para alimentar estas fábricas de órgãos.

Quando em 2006 o cientista japonês Shinya Yamanaka encontrou um método para fazer com que células adultas do corpo regredissem ao estágio de células-tronco semelhante ao de embriões, as iPS, sua descoberta foi saudada como revolucionária. Além de livrar os pesquisadores do dilema ético de ter que lidar com fetos humanos nas suas experiências, o achado abriu caminho para tornar realidade o sonho da medicina regenerativa personalizada, já que estas células-tronco contêm o mesmo DNA do doador, acabando com os riscos de rejeição dos órgãos ou tecidos que venham a ser fabricados a partir delas.

Método original é lento e ineficiente
A descoberta rendeu a Yamanaka o Prêmio Nobel de Medicina do ano passado, mas seu método de reprogramação celular ainda é ineficiente e demorado: em geral, menos de 1% das células adultas tratadas se tornam iPS de fato, e mesmo assim só depois de algumas semanas ou até meses. As restantes permanecem presas em um "limbo", um estágio intermediário em que não têm mais as características dos tecidos diferenciados de onde foram retiradas, como a pele ou o sangue, mas também não têm o potencial de se transformarem em qualquer um deles como as células-tronco.

A razão por trás desta ineficiência tornou-se então um mistério para os cientistas, mas agora o grupo de pesquisadores do Instituto Weizmann parece ter encontrado a resposta. Eles revelaram que uma proteína, chamada Mbd3, seria a responsável por interromper a fase final da reprogramação celular. A função exata da Mbd3 é desconhecida, mas os cientistas sabem que ela está presente em todas as células do nosso corpo em cada estágio de seu desenvolvimento, com uma exceção: os primeiros três dias após a concepção, antes de as células do embrião começarem a se diferenciar. Assim, ao remover a proteína das células sendo tratadas para se transformarem em iPS, eles conseguiram que praticamente 100% delas completassem o processo, e em apenas sete dias.

- Os cientistas que pesquisam a reprogramação celular podem se beneficiar de um entendimento mais profundo de como as células-tronco embrionárias são produzidas na natureza. Afinal, a natureza ainda as produz da melhor forma e da maneira mais eficiente - diz Yaqub Hanna, pesquisador do Instituto Weizmann e principal autor de artigo sobre a descoberta, publicado esta semana na revista "Nature".

Forçar células de tecidos adultos a regredirem ao estágio similar ao das embrionárias não é uma tarefa fácil. Para isso, os cientistas têm que introduzir nelas quatro dos chamados fatores de transcrição, que regulam a forma como os genes funcionam. Por motivos desconhecidos, porém, estes fatores também estimulam a ação da Mbd3, e foi esse processo que os pesquisadores israelenses conseguiram interromper.

- Isto gera um conflito, é como tentar pisar no acelerador e no freio de um carro ao mesmo tempo - compara Hanna.

(Cesar Baima/O Globo)

FONTE: Jornal da Ciência, 19/09/2013

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